De volta à cena
Após anos sem brilhar, Dodô inicia 2002 com tudo e espera por outra chance na Seleção Ele não está na mira de Felipão. Pelo menos por enquanto. Mas anda numa fase que lembra seus velhos tempos, quando apareceu como um novo fenômeno, em 1997. O atacante Dodô, do Botafogo, largou na frente da artilharia do Torneio Rio-São Paulo e tenta tirar proveito desse período de exposição, tão perto da Copa do Mundo, para ter uma chance no time de Luiz Felipe Scolari. Dodô nunca foi convocado pelo treinador. Mas já esteve na Seleção durante a época de Zagallo, disputando vaga para a Copa de 98. Aos 27 anos, o jogador que surgiu de forma meteórica explica por que sua carreira não decolou como todos esperavam e fala do sonho ainda não realizado: jogar no exterior. P)Você começou o ano com tudo, largando na frente da artilharia do Torneio Rio-São Paulo. É seu sprint final para chamar a atenção de Felipão e ir à Copa do Mundo? R)Começei bem e é hora de aproveitar o momento. Mas o Botafogo tem que estar bem porque se não estiver não adianta. Se houver uma brechinha... Mas trabalhando e treinando como estamos, dá para ser lembrado e ter alguma chance. FICHA TÉCNICA Nome: Ricardo Lucas Posição: Atacante Nascimento: 2/5/74, em São Paulo (SP) Peso e altura: 74 kg e 1,77 m Clubes: Nacional, de São Paulo (1992 e 93), Fluminense (94), Paraná (96), São Paulo (95 e 96 a 99), Santos (99 a 2001) e Botafogo (desde 2001) Títulos: Paulistão (98) Você nunca foi chamado pelo Felipão. Mas já esteve na Seleção na época do Zagallo. O que deu errado? Foram quatro convocações e cinco partidas. Mas, quando cheguei, o grupo estava praticamente fechado. Tinha Ronaldinho, Edmundo, Bebeto e Romário. Tive a minha chance, mas para ir à Copa de 98 teria que ter arrebentado naqueles amistosos. P)Naquela época estava mais difícil do que hoje? R)Sim, porque os nomes já estavam praticamente definidos. Agora, não. Tem muita coisa que pode acontecer, está tudo aberto para os atacantes. P)Você acha que está voltando à velha forma no momento certo? R)É. O Rio-São Paulo está ajudando e tem uma importância maior do que teve nos últimos anos. E comecei bem. E quando isso acontece a confiança aumenta, os gols estão saindo. É treinar e esperar. P)Por que o Felipão ainda não convocou você? R)Acho que ele está dando chances para o pessoal que jogou o Brasileiro bem, com justiça, tem que ser assim. E daqui para frente ele vai olhar o Rio-São Paulo para convocar os jogadores que ele acha que estão se destacando. P)Você acha que se o Leão ainda estivesse na Seleção Brasileira sua convocação seria mais fácil? R)É porque eu trabalhei com o Leão, foi ele que pediu minha contratação ao Santos, ele foi muito legal comigo. Talvez tivesse mais chance, sim. Mas o Felipão também tem os jogadores que trabalharam com ele, para quem ele deu prioridade. P)Você acha que existe panelinha na Seleção? R)Acho que não. O treinador está confiando no jogador que ele chamou. Se ele convocou um cara que trabalhou com ele, em algum clube, é porque o jogador tem condição de estar na Seleção. Mas aí é preferência. P)Você tem conversado com o Djalminha, o César Sampaio, que são seus amigos, sobre a Copa? R)Tem tempo que eu não falo com eles. Mas está todo mundo querendo ir para a Copa, querendo seu espaço, e estes últimos meses vão ser importantes. Quem se destacar pode ter sua chance. P)Você surgiu como um fenômeno, seu passe ficou supervalorizado, chegou a US$ 13 milhões, mas sua carreira não decolou, o que aconteceu? R)O problema é que o São Paulo não me vendeu, me segurou, queria ganhar mais, naquela ganância de dinheiro. No fim acabei ficando e quando você passa de uma fase pela qual eu passei, muito boa, a tendência é cair um pouco mesmo. Isso é comum. Depois fui vendido para o Santos por US$ 6 milhões. No Santos foi bom também, só que não pintou a venda para o exterior. É isso que todo mundo fala. Estourei e não fui vendido. P)Que propostas você teve? R)Teve muito time interessado. Só que não se concretizou a venda. E, quando isso acontece, aí fica difícil. Mas tive várias propostas de grandes times da Europa, como o Barcelona e a Juventus. Meu procurador me passou o que tinha, mas o São Paulo não abria mão. A diretoria falava que, se eu saísse, a torcida ia ficar brava e tal. Aí eu fiquei. Só que a boa fase não dura para sempre. P)Mas nem com você ficando no clube a torcida são-paulina se contentou. Você chegou a levar um soco de um torcedor, após uma vitória do São Paulo. Por quê? R)Foi em Bragança. A gente tinha vencido o Bragantino por 2 a 1 e, na saída do vestiário, quando eu costumo dar autógrafo, tinha muita gente e um cara me pediu a assinatura. E, quando eu fui assinar, ele me deu um soco no canto da boca. Não foi nem briga. Veio do nada. Ele correu, pegaram e eu soube depois que ele era de uma torcida organizada do São Paulo. P)Qual era o motivo? R)Vai ver que ele não gostava de mim, tem tanta gente ruim. Mas o São Paulo não estava bem naquele ano, em 98, no Brasileiro. O time não estava acertando, e a cobrança era grande sobretudo em cima de mim porque eu era o responsável pelos gols. Mas pegar no pé é normal, como pega no Santos, pega no Botafogo, pega no Flamengo. Isso faz parte. P)Mas aí o São Paulo resolveu liberá-lo e você foi vendido para o Santos, em 99. Por quê? R)Fui para o Santos porque me desentendi com o Carpegiani. O São Paulo ia viajar para os Estados Unidos e, por causa de uma besteira, porque eu não tinha tirado as minhas medidas para fazer um terno, não pude viajar. Eu e vários jogadores não tiramos as medidas. Ele (o Carpegiani) achou que tinha que punir, mas só eu não viajei. Então exigi sair do São Paulo. Saí porque eu quis. Mas foi ótimo sair e ser vendido para o Santos. P)Mas no Santos você acabou não conquistando nenhum título... R)Ah, mas há 17 anos o Santos não conquista um Paulista ou Brasileiro. A gente chegou perto duas vezes. O Santos é bom, mas é difícil jogar lá por causa da cobrança de títulos. A gente fez um bom time, em 2000, na João Havelange, e no Paulista, quando quase fomos campeões. Mas não fomos. E aí a torcida cobra muito. Mas o Santos foi bom pelos gols que fiz, estou entre os oito maiores artilheiros da história do clube. É diferente, mas marcou assim como o São Paulo. P)Você jogou com o Edmundo, no Santos, como era o relacionamento entre vocês? R)Comigo, na boa, a gente se entendia bem. Eu também sou um cara tranqüilo, deixo o cara à vontade. Nunca teve atrito, pelo contrário. A gente se dava muito bem. P)No São Paulo, você jogou com o Raí, o França. Como era o ambiente? R)É diferente porque a gente cresceu no clube. A amizade no São Paulo era muito grande, tínhamos muita afinidade, eu, o Bordon, o Fabiano, o Álvaro, o Denílson, o França, o Rogério, a maioria desses jogadores do São Paulo cresceu junta. Era tipo uma família. P)Antes de chegar ao São Paulo, você jogava pelo Nacional, que foi seu primeiro clube. Como era aquela época? R)Era um clube da Terceira, não, da Segunda Divisão, agora. Joguei por lá uns três anos. Do Nacional vim para o Fluminense, no Rio, em 94, emprestado para jogar o campeonato de juniores do Rio. Voltei para o Nacional e logo fui para o São Paulo, no fim de 94. Aí, disputei a Copa São Paulo de 95 e o São Paulo me comprou do Nacional. P)E o Fluminense, até hoje, se arrepende profundamente por não tê-lo comprado naquela época... R)O Fluminense não tinha o dinheiro para me comprar, não tinha US$ 50 mil, que era quanto valia meu passe naquela época. O Nacional não aceitou que eu ficasse mais tempo no Fluminense e eu voltei. O São Paulo acabou mostrando interesse e o Nacional subiu o valor. Fui vendido por US$ 300 mil. Fui artilheiro da Copinha e o Telê pediu para me contratarem. Mas eu gostaria de ter ido para o Fluminense. Fiz alguns amigos ali. P)Você é bem paulistano. Já está adaptado ao Rio? R)É, sou um paulistão. Mas estou praticamente adaptado. Não saio muito, fico na Barra. Sou caseiro. Saio quando minha esposa quer sair. Mas jogando direto não dá para fazer muita coisa. P)Ao sair do Santos, você estava quase com os pés no Grêmio, mas acabou vindo para o Botafogo. O que aconteceu? R)Eu recebi proposta do Cruzeiro, do Palmeiras e estava quase no Grêmio. Todos são grandes clubes, mas o Botafogo, na época, estava com o Paulo Autuori, que era o treinador com quem eu tinha trabalhado no Santos. Ele foi importante. Também foi decisivo o interesse do Botafogo, que pagou à vista o empréstimo ao Santos. É claro que eu também não vim de alegre. Vim porque foi um contrato bem feito. P)Até quando ele vigora? R)Até junho. Quando terminar eu pego passe livre. P)E quais são os planos? R)Depende muito desse período, até o fim do Rio-São Paulo. Se as coisas acontecerem bem, e se Deus quiser vão, aí há chance de poder ir para fora. P)É uma vontade muito grande jogar no exterior? R)É um sonho que eu tenho. Jogar lá fora e num grande clube na Itália, França ou Espanha. Não quero me precipitar, mas fatalmente vai dar para eu jogar no exterior. Meu procurador, o Juan Figer, é muito influente lá. Então a hora que tiver que ir vai ser tranqüilo. P)Você tem dois irmãos que também jogam futebol. Como vai a carreira deles? R)O Rogério, 22, já jogou no Fluminense, chegou a treinar em outros clubes, mas não deu certo. Agora ele vai fazer outra coisa. E o Rodrigo, 17, jogou a Copa São Paulo pelo Roma, de Barueri, o time que foi campeão no ano passado. Mas foi a primeira Copinha de Juniores que ele jogou, e foi bem, fez um golzinho. Esse pode dar certo. Leva jeito. P)Você teme essa onda de violência e de seqüestros? R)A gente vê as notícias, mas se ligar muito para essas coisas você não sai na rua. O melhor é estar sempre precavido e pedir a Deus que nada aconteça. P)Você tem seguranças? R)Não. Mas no São Paulo, durante uma época, eu tive. A torcida estava meio brava, então tinha jogadores do clube que andavam com seguranças. A gente estava de férias. P)Quem você considera craque no futebol brasileiro e mundial? R)Que eu vi jogando foi o Zico. Hoje em dia não tem mais não. É o único para quem eu pediria um autógrafo. P)E o Romário? R)Romário é um atacante que faz gol, tem qualidades pra caramba. Não preciso nem discutir Romário. Mas só pediria autógrafo para o Zico. P)Romário ainda é seu concorrente... R)(risos) Se ele tiver fazendo gol, sempre vão pedi-lo na Seleção Brasileira. É um jogador que é respeitado e que quando faz gol cria a sombra, como estão falando agora. Mas há vários atacantes que têm condições de estar na Seleção, como França, Élber, Ronaldinho, o que está machucado. Mas se estiver bem é certo que vai, fora os que já estão na Seleção. É uma posição difícil de estar, entre os quatro atacantes. Tem que deixar o barco correr, treinar e preparar para fazer gols. :: Dodô concedeu esta entrevista em seu apartamento na Barra. Ele é vizinho de Athirson e Leandro Ávila, que moram no mesmo condomínio :: Dodô fez oito gols nas cinco primeiras rodadas do Rio-São Paulo :: Na era pós-Pelé, Dodô é o sétimo maior artilheiro do Santos, com 59 gols :: Seu passe valia US$ 50 mil, em 1994, e chegou a US$ 13 milhões, em 98

 Fonte: Lance! Apesar de tudo, guardo boas recordações * Ao sair do Santos, depois de ter defendido o clube por duas temporadas, você vai guardar mais alegrias ou tristezas dessa passagem pela Vila Belmiro? Ricardo Lucas, Dodô - Com certeza, mais alegrias. Apesar de tudo foi muito bom jogar pelo Santos. A única coisa que faltou foi um título. Queria ser campeão, mas é um fato que ninguém, no clube, consegue desde 1984. * E o que faltou para ser campeão? Dodô - Não sei. É difícil explicar. O clube consegue chegar nas finais, mas na hora da decisão, deixa escapar o título. Nesses dois anos em que joguei no Santos, estivemos próximos de ser campeões em dois Campeonatos Paulistas e em uma Copa do Brasil. Acho que, infelizmente, o momento de o Santos ser campeão não é esse. * Por quê? Dodô - Simplesmente não chegou o momento, mas vai chegar. Todos os clubes grandes já passaram por isso. Torço para que o Santos consiga superá-lo o mais rápido possível, até para que os jogadores que atuarem pelo time, no futuro, não sofram o que eu sofri. * E o que você sofreu? Dodô - A pressão pela falta de um título de prestígio é bem grande e os jogadores passam a ser cobrados mesmo quando não merecem. * Em alguns momentos você chegou a ter uma relação tumultuada com a torcida do Santos. Ela pegou muito no teu pé? Dodô - E como. Pegou mesmo. Não só a mim, mas ao time todo, só que as cobranças sobre o Dodô causam mais notícias. Depois sou um atacante e sempre se espera que o atacante resolva todos os problemas. Não é assim apenas no Santos. Acontece a mesma coisa no Palmeiras e Corinthians e em todas as equipes grandes. * Mas você está deixando o clube como um dos principais artilheiros após a era Pelé... Dodô - Tem também isso, que é muito legal. Pelo Santos, consegui uma média alta de gols. Fui contratado para fazer gols. Acho que cumpri o meu papel. * Nesse período em que você defendeu o Santos, qual a fase que te deu maior satisfação? Dodô - Foi o Campeonato Brasileiro de 99. Nunca joguei com tanta vontade em toda a minha carreira. * Você, a exemplo da maioria dos jogadores de futebol do Brasil, também considera como um objetivo profissional jogar no exterior? Dodô - Não encaro como um objetivo profissional, mas como uma chance de enriquecimento cultural, além de uma maior estabilidade econômica. É uma oportunidade para aprender uma nova língua e os costumes de um outro país. * E você já está estudando alguma língua em particular? Dodô - Que nada. Só espero que seja alguma língua latina e nada de muito complicado, como o alemão. * Você vai levar alguma mágoa do Santos? Dodô - Eu dei o máximo pelo Santos. Também gostei da cidade, tranquila, como o meu jeito de ser. Mas o meu ciclo no clube acabou e, apesar de tudo, vou guardar boas recordações.
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